
Crise na Europa reduz fatia do capital externo nas emissões de ações de mais de 70% para 60%, até junho deste ano.
Por Cristiane Perini Lucchesi, de São Paulo
05/07/2010
A crise na Europa pesou e a participação dos investidores estrangeiros nas emissões de ações no Brasil caiu de mais de 70% para aproximadamente 60% na média nos últimos três a quatro trimestres. Nesse cálculo feito pelos bancos de investimento foram incluídos apenas os investidores institucionais, pois as pessoas físicas estrangeiras não podem participar de colocações na bolsa brasileira. Houve casos neste ano nos quais a fatia dos investidores nacionais foi até maior do que 50%, como as operações do frigorífico JBS e da Even Construtora e Incorporadora.
Os bancos participantes da transação do Banco do Brasil se recusaram a falar sobre ela, pois ainda não foi concluída. Mas, segundo comentários no mercado, a fatia dos institucionais locais seria de aproximadamente 45% no total da demanda e de mais de um terço no total efetivamente alocado, confirmando a tendência de menor participação dos estrangeiros. Para os cálculos, foram excluídos os cerca de R$ 2 bilhões estimados de participação da pessoa física na oferta do BB, que pode chegar a R$ 9,8 bilhões considerando-se o lote suplementar. O governo, por meio do Fundo Soberano, e a Previ, fundo de pensão dos funcionários do banco, entraram com R$ 2,3 bilhões.
Mas, mesmo quando considerados todos os participantes nas ofertas de ações, inclusive as pessoas físicas, a participação dos estrangeiros caiu, de 65,4% em 2009 para 59,4% na média deste ano. Em 2008, a participação só foi menor, de 46,9%, por conta das distribuições de Vale e Gerdau , nas quais os acionistas majoritários nacionais exerceram seu direito de prioridade nas ofertas e compraram fatias significativas dessas transações. O ápice da participação estrangeira nas emissões de ações no Brasil foi em 2007, quando superava 70%.
"A crise na Europa aumentou a aversão a risco e reduziu a participação dos investidores nas emissões de ações em todo o mundo, inclusive no Brasil", diz Guilherme Paes, sócio responsável pelo banco de investimento do BTG Pactual, que está no primeiro lugar do ranking da "Bloomberg" de assessoria em emissões de ações neste ano.
Isso significa que a demanda total nas transações foi reduzida também. Em 2010, na média, a demanda dos investidores nas ofertas foi de 1,5 vez a 2 vezes o total colocado, frente a 2,3 vezes de 2009, 3,8 vezes de 2008 e 3,5 vezes de 2007, diz Fábio Nazari, sócio responsável pela área de mercado de capitais para ações do BTG Pactual.
Essa realidade foi vivida pelas estreantes deste ano, que, na maioria das vezes, tiveram de baixar o preço inicialmente pretendido para conseguir fazer suas colocações com sucesso. Além disso, em geral, as ações caíram na bolsa no primeiro dia de negociação.
A aversão ao risco também se traduz em maior seletividade pelo investidor. Nesse sentido, a participação dos fundos locais passou a ser um importante termômetro para os estrangeiros avaliarem a qualidade dos ativos. Em 2007, auge da euforia, não era raro que ofertas sem apetite entre os domésticos fossem colocadas com grande sucesso, com participação do estrangeiro acima de 80%.
Segundo Nazari, fundos que investem em América Latina estão com mais dinheiro em caixa neste momento, por causa da maior cautela decorrente da crise de dívida na Europa, mas não só. "Temos emissões gigantes de companhias e bancos e fundos querem manter dinheiro em caixa para participar delas", diz.
Ele lembra da emissão da Petrobras, em setembro, que pode passar de US$ 50 bilhões, da transação do Agricultural Bank of China, que deve superar os US$ 20 bilhões, de uma captação do japonês Mizuho, de mais de US$ 10 bilhões, e de inúmeras transações na Índia.
Segundo Nazari, o total do dinheiro em caixa dos fundos que investem em ações na América Latina passa de 6% hoje, na comparação com pouco mais de 3% antes. Ele lembra ainda que muitos estrangeiros já entraram no Brasil e ficaram por aqui no ano passado, reduzindo a disponibilidade para ingressos: o fluxo externo líquido no mercado secundário para a bolsa foi de US$ 12 bilhões a US$ 13 bilhões em 2009 e passou de US$ 20 bilhões no mercado primário.
O sócio do BTG Pactual notou ainda, entre os estrangeiros, uma menor participação dos fundos multimercados (hedge), com mais apetite ao risco e que assumem posições de mais curto prazo em ações, e uma maior participação dos fundos "long only", aqueles que assumem posições de mais longo prazo em ações.
"É fato que locais aumentaram sua participação em termos relativos", concorda João Saldanha, chefe de vendas de renda variável para América Latina do Bradesco BBI. Segundo ele, antes os estrangeiros chegavam a comprar até 80% de algumas emissões. "Mas isso não se deu por maior interesse local. Em termos absolutos, o tamanho da demanda não aumentou: foi a de estrangeiros que diminuiu", diz. "Ando com saudades das transações nas quais o interesse dos investidores era de até quatro vezes a oferta efetiva de ações", brinca.
Segundo Saldanha, o estrangeiro, em muitas situações, simplesmente fica fora da emissão por medo de baixa liquidez. "Há também maior aversão a risco de ações como um todo", conta.
"Nas transações maiores, a participação dos estrangeiros tende a ser maior também", afirma Luiz Galvão, diretor gerente do Bradesco BBI responsável pelas corretoras. "As histórias mais atraentes para eles são aquelas de crescimento, enquanto os investidores locais prestam mais atenção ao valor."
"A menor participação dos estrangeiros é conjuntural e não aponta tendência", diz José Olympio Pereira, responsável pelo banco de investimento do Credit Suisse no Brasil. (Colaboraram Graziella Valenti e Fernando Torres)
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