
Após mais de 12 anos envolvido com o Programa Empreendedor do Ano da Ernst & Young e 10 anos com a sua versão mundial, constantemente sou perguntado por empreendedores, investidores e acadêmicos qual o ponto comum entre os empreendedores de sucesso. O que move esses empreendedores, o que os torna tão especiais e como identificar os casos de potencial sucesso ou simplesmente por que alguns têm mais sorte que os outros? A resposta desta pergunta não é tão simples se considerarmos que além das características destes empreendedores há uma série de fatores externos que podem impactar de forma importante os seus empreendimentos.
Por conta disso, gostaria de concentrar os meus comentários naquilo que observei ser comum na maioria dos empreendedores de sucesso, desconsiderando qualquer fator externo. É importante destacar também que as características a seguir não são garantia de sucesso, porém, todas as vezes que encontrei mais de cinco delas, normalmente lá estavam empreendedores bem sucedidos: Saber aonde quer chegar. Este saber não é necessariamente representado por um Plano de Negócios formal. No entanto, ter a idéia do tamanho que se quer atingir, o nicho que se quer explorar, o caminho a seguir e ter a disciplina necessária para não perder o foco, tem sido uma característica marcante nos empreendedores de sucesso. Durante a vida de uma organização o empreendedor vivencia várias tentações de buscar outros caminhos do desenhado inicialmente, aquele que conseguiu manter-se no traçado básico inicial, conquistou mais rapidamente escalar o negócio e aumentar a velocidade de crescimento. Pensar grande é recorrente entre os empreendedores. Querem chegar longe. Afinal, o trabalho de pensar grande não é maior do que o de pensar pequeno.
Estar pronto para reavaliar a estratégia da companhia. Embora possa parecer antagônico à característica anterior, que privilegia a disciplina; é importante saber diferenciar disciplina de teimosia ou inflexibilidade. Estamos em um mercado onde as mudanças são muito rápidas. Estruturar um negócio que permita a rápida adaptação a essas mudanças coloca o empreendedor em uma grande vantagem competitiva. Durante a crise do ano passado, em uma pesquisa efetuada pela Ernst & Young e atualizada recentemente, identificamos que as organizações que conseguiram crescer durante a crise foram as mais ágeis em focar no mercado e em ações de aumento de receita. Aqueles que se preocuparam apenas em proteger seus ativos e concentraram-se nas ações tradicionais de redução de custos, acabaram deixando espaços importantes no mercado que foram rapidamente ocupados pelas organizações mais flexíveis.
Investir nas pessoas certas, saber inspirá-las e dividir os sonhos. Desde o inicio deve-se saber identificar as melhores pessoas e saber como dividir os sonhos com elas. Partindo dos princípios de pensar grande, rápida adaptação às mudanças e de que as empresas empreendedoras são organizações com altas taxas de crescimento, há que se identificar pessoas que crescerão junto com a organização. O grande desafio aqui é balancear aspectos como: potencial versus experiência, remuneração fixa e variável, além de dimensionamento correto da estrutura para não criar estruturas super dimensionadas para o momento e com isso onerar os custos e desmotivar as pessoas.
Desapego. Este, acredito, é um dos maiores desafios do empreendedor. Sabemos que durante o inicio de qualquer empreendimento, o empreendedor encontra pessoas comprometidas com os seus sonhos, fieis companheiros e familiares que ajudam nas etapas iniciais. Porém, em várias ocasiões, essas
pessoas não acompanham as mudanças necessárias para o crescimento do negócio e devem ser substituídas imediatamente. Gerenciar este tema tem sido um dos momentos mais desgastantes e tristes para os empreendedores. O medo de enfrentar este tipo de situação que envolve aspectos emocionais e por vezes, familiares, faz com que o empreendedor vá postergando esta ação o que é pior para o negócio, e para todos os envolvidos, inclusive pessoas a serem remanejadas ou até dispensadas.
Há várias formas de recompensar as pessoas fieis e familiares que colaboraram com o empreendimento sem prejudicar o futuro dos mesmos.Outra barreira pessoal é o desapego em relação a delegar e dar liberdade para as pessoas vencerem os desafios dados. No início, o empreendedor acostuma-se a fazer um pouco de tudo e ficar a par de tudo o
que está acontecendo. Essa síndrome do follow up tem que ser resolvida imediatamente na medida em que o tamanho do negócio exige e divisão de funções, bem como delegar funções a especialistas. A constante intervenção e o excesso de acompanhamento por parte do empreendedor junto às pessoas a
quem confiou missões importantes, faz com que todos percam foco, energia e principalmente motivação.
Criação de rede de relacionamentos. Em todos os casos de sucesso que conheço, os empreendedores que souberam investir em criar relacionamentos, conseguiram acelerar de forma importante o seu crescimento. As redes de relacionamento trazem para os empreendedores vantagens como: trocar experiências, identificar novos negócios, dar e receber “coaching” entre pares,
empreendedores já consagrados e novos empreendedores, além de muitas vezes identificar fontes alternativas para financiar o negócio.
Exposição. Expor o seu negócio e seus desafios desde cedo atrai o interesse dos players focados em empresas de alto impacto. Embora, no caso de ser um bom empreendimento, haverá o ônus do assédio por parte destes players, por outro lado aumentará o acesso a empresas de consultoria que estarão dispostas a investir na organização, apostando no seu crescimento, assim como bancos e fundos que poderão financiar as ações futuras, auxiliar nas questões de gestão, além de atrair outros potenciais investidores.
Ter olhos e ouvidos grandes. Uma coisa que sempre me chamou a atenção é a capacidade que a maioria dos empreendedores de sucesso tem em perguntar muito, escutar e observar muito. Aqui novamente deve-se saber balancear a dose de confiança que o empreendedor deve ter com a humildade de saber que sempre temos o que aprender com a concorrência e com os parceiros. Assim como a rede de relacionamentos é importante, o empreendedor que sabe perguntar e ouvir tem uma tendência maior ao sucesso. O grande risco do empreendedor ao longo de sua trajetória de sucesso é o excesso de autoconfiança o que pode torná-lo arrogante, cego e surdo para as ameaças e oportunidades do mercado. Quem não ouviu um empreendedor de sucesso no início da decadência falando: “sempre fiz assim e sempre deu certo!”. Esse tipo de atitude é um dos primeiros sinais que o
empreendedor foi pego pela armadilha da arrogância.
Renovação e Criação. Como comentei no item anterior, continuar renovando e criando, principalmente diante da nova era que estamos vivendo, é um fator crítico não apenas de sucesso, mas também de sobrevivência. Durante a vida, o empreendedor corre o risco de olhar apenas para o lado ou para cima e se esquece de olhar para baixo, para os outros empreendedores que estão chegando, inovando e crescendo a taxas extremamente altas. O grande dilema deste empreendedor é o momento que seu empreendimento chega a um determinado ponto em que ele terá que vivenciar talvez o desafio mais importante de sua vida, o principal desapego de todos, a horas que ele deverá receber sócios para que consiga não apenas financiar a grande virada de sua organização e ao mesmo tempo poder voltar a dedicar-se àquilo que realmente lhe dá prazer e é realmente diferenciado dos outros: inovar e criar.
Neste instante o empreendedor que quer perpetuar o seu negócio, deverá estar pronto para passar por uma associação estratégica, ou com um fundo de investimento ou abrir o capital de sua empresa, ou todos em etapas distintas.
Estar sempre preparado para receber sócios (estratégicos, VC’s, PE,s, IPO). Independentemente de o empreendedor estar pensando em uma destas opções, trabalhar com o cenário de que uma delas pode ocorrer é uma das melhores formas de: trabalhar a governança corporativa, verificar o valor do
negócio, testar a geração de valor de cada investimento desejado, ter uma política de transparência e estar atento a controles internos e outros temas que deverão ser cobrados por um futuro parceiro. Pensar desta forma, ao contrário do que muitos pensam, gera valor diariamente para o negócio, além de evitar que em uma futura operação o valor do negócio seja penalizado por conta de deficiência de controles, governança, gestão de riscos, informalidades, entre outros fatores que são identificados como fragilidades por investidores ou pelo mercado e que certamente impactam negativamente no valor de qualquer negócio.
Os pontos aqui identificados, como disse anteriormente, não são garantia de sucesso. No entanto, se observarmos o ciclo de vida das organizações de sucesso, verificamos que os empreendedores que pilotam os seus negócios, de forma disciplinada, nesta jornada de valor têm muito mais chance de chegar ao topo e perpetuar o seu negócio. Enfim, aí esta o porquê alguns têm mais sorte do que os outros.
Carlos Alberto Miranda
Sócio da Ernst & Young responsável na América do Sul por empresas de alto impacto
http://www.endeavor.org.br/conteudo/artigos/o-que-torna-os-empreendedores-tao-especiais
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